Mauro Mendonça
De Itaperuna à Brasília de Vemaguet

Em 1995, vivia numa cidade do interior do Rio de Janeiro, chamada Itaperuna.... Lá encontrei a branquela, uma Vemaguet Rio, logicamente 1965, linda toda original, porem com as marcas do tempo nem tanto pelo uso, mas pelo desuso... mas o que me chamava atenção e a falta de gatilho... já que a ausência de peças torna o ser humano criativo e as vezes passa do limite tolerável....

 

Não passou um mês que a tinha visto pela primeira vez e já bateu o desejo de tê-la para ser o carro da família... e comecei a atentar o juízo do dono... até que ele cedeu a minha oferta e para quem nunca tinha andado num DKW, adorei o fato de que da oficina dele em direção a minha casa era só descida... pois com certeza  eu iria soltar a embreagem proporcional ao que se aperta o acelerador e não ia sair do lugar.  As marchas foram fáceis aprender a posição delas... duro foi não errar muito querendo sair de 3º marcha no primeiro dia.

 

A emoção da esposa foi grande ao ver que a família não andaria mais só de moto, que agora estávamos motorizados e poderia então vir as crianças. A reação dela foi tão grande que ficava rindo e balançando a cabeça... de tanta felicidade... mas não demorou nada e já estávamos circulando pelas ruas de Itaperuna. Foram muitas estórias com ela no dia a dia... ate que resolvemos viajar para Brasília, 1200 km de distancia.

 

Para começar a viagem, fui revisando ela toda, meu sogro achando que ela iria quebrar antes da aventura começar e disse que estava tranqüilo com a loucura que tava pensando em fazer... mas a coisa foi dando certo o tempo todo e chegou dia 24/12/1996, e isso mesmo... fomos viajar exatamente no dia de Natal... minha estratégia era pegar a estrada livre.  E se iniciou a viagem... todos rindo de mim no trabalho e eu sem entender porque.

 

Andei uns 80 kms o carro perfeito a 100 km/h perdendo um tanto de velocidade nas subidas, mas tudo dentro do normal... uma paradinha num canto da estrada para um purgante... putz... fiz besteira... não pensei que iria fazer tanta fumaça branca, a ponto de tapar toda a visão da estrada... rapidamente como quem não quer ser percebido ...rsrs... entrei no carro e parti de novo no asfalto... e a fumaça me perseguindo para dizer oia ele ali....nessa época não tinha celular então não dava para ligar para os amigos e dizer que já se passavam 300 kms e a vemaguet estava como se nada tivesse acontecido... o primeiro incidente aconteceu a meia noite quando chegamos em BH, na entrada do hotel eu perguntando preço e ouvindo o xiiiiii do pneu traseiro esquerdo esvaziando..rsrs disse para o rapaz a porta do hotel... onde estaciono... pois ali mesmo ficaria.

 

No dia seguinte, partimos rumo a Brasília... a vemaguet já com pneu conserto toda pronta... iniciou a viagem num ritmo mais forte... estrada reta..... andávamos a 110-120 direto... radiador sempre frio... a conversa girava em torno do cheiro de óleo 2t... eu já nem sentia mais... agora a patroa começou a achar ruim as malas dela na traseira da DKW estava tudo impregnado..rsrs Afinal borrachas originais ainda..rsrs

 

Chegamos a Brasília com um saldo de horas viajadas de 16,5 horas... consumo altíssimo de 8,5 a 9,5 km/l e se não fosse o galão extra de 5 litros que pus, teria passado aperto num dos trechos... depois recalculei o consumo e aprendi que o ponteiro de gasolina começou a marcar errado..rsrs

 

Nessa época as chuvas começaram forte, e apesar de não pegarmos chuvas na ida, na volta a Vemaguet cortou dobrado, já a uns 110 kms  de Brasília, o limpador que era 6v, não agüentou o rojão ... era muita água... o vidro apesar de ter um produto milagroso que repelia a água... acabei ficando sem limpador... a solução foi encostar num posto já chegando em cristalina e peguei o kit magyever que não tinha usado ainda... desconectei o motor e deixei o mecanismo do limpa parabrisas solto, amarrei dois barbantes e dei para a co- pilota..rsrsrs ela olhou com uma cara de pra que isso... mas ai milagre não faço.... e la foi ela mexendo aquilo quando a coisa ficava impossível... eu não entendi porque ela estava a cada hora mais próxima de mim, afinal o banco da Rio e independente... ate que sem querer fazer perguntas para ela... fiz.. porque vc esta quase fora do banco no meio do carro? E ela prontamente respondeu... a borracha da porta aqui em baixo não ta vedando e ta entrando água e molhando minha perna toda..rsrsrs... era muita água... a vemaguet fazia aquaplane o tempo todo...  próximo já a Curvelo vi uma Omega Suprema parada no acostamento e parei para ajudar a familia, na época dizia que minha Vemaguet era a inspiração daquele carrão, mas o Omega do cara tinha fervido e já tinha água e óleo fazendo uma lambança so no motor... peguei o kit magyver novamente... dei a corda para ele amarrar no gancho da suprema e deitei amarrando no eixo da vemaguet.... foi fácil porque era plano.... o carro do cara tava pesado pacas... e la fomos que cena linda... se tivesse maquina digital postaria aqui.. mas tudo foi rápido...reboquei ele uns 15 kms todo feliz... e com um medo enorme de estragar a branquela... afinal ainda tinha uns 700 kms para rodar...

 

Chegamos a BH as 18 horas... foram 12 horas para vencer 740 kms (que marcou no velocímetro dela), no Shoping Del Rey fomos jantar para depois desmaiar na cama de algum hotel...rsrs curioso foi que os mais idosos quando passávamos viravam a cabeça... não sei por estarmos cansados ou se o óleo 2t remetia a eles alguma lembrança...

 

No dia seguinte... chegamos a Itaperuna... meus amigos disseram que se soubesse iriam por a banda da cidade e fogos para receber-nos... tal loucura eles pensavam impossível tivesse acontecido... uns achavam que eu tinha ido a algum sitio nos arredores apenas... mas as fotos da DKW em Brasília não deixaram duvidas... e a Vemaguet foi reconhecida como um carro valente. O saldo da viagem foi somente o limpador de parabrisas quebrado e nos últimos 80 kms um platinado quebrado, que foi rapidamente “esticado” e envergado voltando a funcionar normalmente os 3 cilindros.

 

Em 1997, novamente ela encarava Itaperuna – Brasília, mas dessa vez era eu e ela somente, e os bancos traseiros deitados e sob eles parte da minha mudança quando viemos morar em Brasília.

 

A brava guerreira foi meu único carro de 1995 a 1998, levando e trazendo meu filho da maternidade e logo depois resolvi iniciar uma restauração que não consegui finalizar diante de prioridades familiares.. foi se arrastando... ficando intransponível e em 2008 encerrei a agonia dela na UTI e seus órgãos foram “doados” para que outras DKW pudessem ser curadas.

 

Hoje fica a saudade e vontade de voltar a ter uma Vemaguet Rio 1965 Branca.

 

 


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